A Arte do Vestuário



O livro “Arte e técnica do vestuário em Santa Catarina” é uma grande reportagem sobre a produção têxtil do Estado, com caráter documental de resgate de memória e levantamento em campo. São três capítulos que trazem entrevistas, dados históricos e um retrato da produção, além de apresentar a preocupação com o futuro dessas atividades que tiveram início com a ocupação pelos imigrantes alemães no Sul do Brasil.

Leia alguns textos que integram a obra:


A Moda que o brasileiro veste

Ao olhar para as ruas deste vasto Brasil de tantos contrastes, percebe-se algo em comum, uma certa hegemonia no vestir, um consenso, mainstream ou brazilianness. Como dizem os franceses, un je ne sais quoi; na filosofia hegeliana proposta como zeitgeist, espírito do tempo, aqui adaptado para raumgeist, espírito do lugar, que se traduz em uma moda casual.

Tal revelação, o coup d’éclat, aconteceu ao pisar pela primeira vez no chão de fábrica de uma indústria têxtil e de confecção, na bucólica cidade de Luiz Alves, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Acostumada às passarelas, onde roupas desfilam desafiadoras, aos editoriais e campanhas publicitárias com suas eternas promessas aspiracionais e às vitrines reluzentes que seduzem indiscriminadamente aos que passam, ali me dei conta de que o ciclo fechou-se e da percepção veio a hipótese: e se for esta a moda que o brasileiro veste?

A incursão na indústria têxtil de Santa Catarina que resultou neste livro começou para valer a partir dessa constatação. Na sede da Rovitex, indústria que agrega todos os elos da cadeia produtiva e de transformação têxtil e do vestuário, assistimos à fibra de algodão entrar por um portão e, do outro lado, saírem roupas prontas para a coleção. Na linha de montagem do vestuário, fibra, fio, tecido, corte, costura, pesquisa, beneficiamento, design, maquinário de ponta, engenheiros e operadores especializados contracenavam como em um balé sincronizado. O consumidor nem imagina, pensei, que ao comprar sua roupa, tecida na trama há a magia dos processos produtivos.

A indústria têxtil de Santa Catarina impressiona tanto pelos indicadores produtivos e comerciais quanto por sua herança cultural. Levantamos dados sobre a relevância do estado como cluster da produção de têxteis e vestuário e nos deparamos com uma tradição com mais de 130 anos de história. Disseminada de pai para filho, de patrão para funcionário, esta história tem origem na imigração europeia para a Região Sul do Brasil, na segunda metade do século 19, e se consolida com a produção de vestuário para marcas de moda nacionais e internacionais.

Italianos, poloneses, ucranianos e, principalmente, os colonos alemães, ao desembarcar no Porto de Itajaí, trouxeram para a região suas raízes e conhecimentos, além do orgulho pelo ofício e pelo savoir faire, pelo tékhne, o saber fazer, com herança na tradição das guildas medievais. Por outro lado, trouxeram o espírito empreendedor do artesão do fim de século, que na Europa tornava-se mercador e industrial. Essas características concederam à região uma identidade peculiar, construída na fusão do artesanal e do tecnológico, da produção material e de valores culturais.

Tradição do trabalho, austeridade e, ao mesmo tempo, ousadia são traços marcantes da influência europeia, principalmente germânica, aparente tanto na personalidade do povo quanto no modus operandi produtivo e nos negócios. Por outro lado, é notável a incorporação do jogo de cintura brasileiro, na flexibilidade de renovar-se na crise, mudar modelos de negócio e processos, de forma a não parar nem com a produção material, nem com a história.


A história sociocultural e da produção de têxteis que narramos neste livro começa a se misturar a partir deste ponto. No início da colonização europeia, as primeiras comunidades urbanas foram construídas nos entornos das grandes fábricas que surgiam com suas ruas de vilas operárias, onde acontecia a vida social.

Ao expandirem suas instalações e desenvolver suas produções, as indústrias formaram uma mão de obra especializada e capacitada para operar o maquinário importado. A partir das instalações das grandes indústrias, outras menores foram surgindo, às vezes formadas por ex-funcionários que se tornavam fornecedores dos antigos patrões. Assim foi sendo tecida uma grande malha produtiva de Blumenau e espalhando-se pela região do Vale do Itajaí, banhada pelo Rio Itajaí-Açu, até o norte do Estado.


A região faz de Santa Catarina o segundo maior polo produtor e exportador da cadeia têxtil brasileira, onde estão localizados 15,4% dos produtores, sendo destes 4.937 unidades de produção de matéria-prima têxtil e 4.139 fabricantes de artigos confeccionados. O Estado é o principal fabricante de tecido de malha, com 36,8% da produção nacional. A historiadora e professora Sueli Petry, conhecida carinhosamente como a guardiã da memória de Blumenau e região, esclareceu, no seu depoimento para este livro, que até hoje existe uma amálgama produtiva na industrialização da região. No início havia um modelo de processo vertical; com o tempo, passou a ser horizontal, com a terceirização de algumas das etapas produtivas.

Atualmente, a indústria permanece diversa no sentido de que muitas empresas mantêm uma produção verticalizada na própria empresa, que envolve desde a transformação da matéria-prima até a criação de uma marca de moda.

Por indicação da historiadora, conhecemos o Museu de Hábitos e Costumes, onde parte desta história é contada, a partir da cultura material do vestuário. Instalado em uma antiga casa de colonos, o museu foi concebido com a doação do acervo de indumentária colecionado pela Sra. Ellen Weege Vollmer. Filha e mulher de alemães e com tino empreendedor, a Sra. Vollmer ajudava a tocar os negócios da família, entre estes, a Fábrica de Chapéus Nelsa. Percebeu desde cedo a importância da indumentária como testemunho cultural e mais tarde doou sua coleção para a Fundação Cultural de Blumenau.

O Museu Hering é outro espaço importante para a conservação da memória e da tradição no vestuário da região de Blumenau e do Vale do Itajaí. Construção em enxaimel datada do século 19, onde funcionava o antigo refeitório e biblioteca dos funcionários da companhia fundada por Hermann e Bruno Hering em 1880, está localizada no Vale do Bom Retiro, onde até hoje funciona a sede da Hering. Além de documentar a trajetória da empresa, que se confunde com o próprio desenvolvimento da região, a exposição permanente conta com arrojado projeto multimídia e traz desde o depoimento em áudio dos fundadores com base em registros históricos até acervo de maquinaria, entre máquinas de costura mecânicas e teares circulares de operação por manivela. Uma apresentação em audiovisual mostra de forma linear o fluxo de produção do vestuário.

Pioneiros com espírito empreendedor, a exemplo dos irmãos Hering, perceberam a demanda em Blumenau e região por roupas leves, porém, resistentes e casuais, aptas a serem usadas tanto para o trabalho quanto para o lazer. Os recém- chegados logo abandonavam seus pesados trajes europeus em prol de uma forma de vestir mais apropriada ao clima e rusticidade dos trópicos, que incluía o uso da camiseta de algodão, na Europa considerada roupa de baixo. As mulheres dos imigrantes ocupavam-se das atividades domésticas e nas horas vagas apreendiam a costurar para fazer as roupas da casa e também contribuir com o orçamento familiar. Algumas dessas costureiras profissionalizaram seus ofícios e passaram a integrar o quadro de mão de obra especializado das indústrias de confecção.

Atualmente, a formação de mão de obra no Estado é garantida por 37 cursos presenciais de graduação e 21 cursos técnicos voltados para o setor têxtil e de confecção. Entre estes, destaca-se o Bacharelado em Moda – Habilitação em Estilismo, da Universidade do Estado de Santa Catarina, a Udesc, onde se formou o jovem estilista Lui Iarochesky, recém-ingresso no line-up da Casa dos Criadores, em São Paulo. Já a Orbitato, Instituto de Estudos em Moda e Design, é uma escola independente de formação técnica, idealizada e dirigida pela artista Celaine Refosco. Funciona desde 2007, na cidade de Pomerode, com a proposta de fomentar a criatividade aliada à técnica de produção catarinense de moda.

Com a mesma preocupação de inserir Santa Catarina definitivamente no mapa da moda foi criado por empresários da região o Santa Catarina Moda e Cultura (SCMC), projeto que incentiva e promove a atualização, o aperfeiçoamento e as relações empresariais do mercado têxtil catarinense. Segundo Amélia Malheiros, atual presidente do SCMC, um dos feitos principais do projeto foi colocar na mesma mesa de discussões empresas concorrentes, com a finalidade de encontrar soluções para problemas em comum, entre estes, a formação e o treinamento da mão de obra local, a ética e governança corporativa, além de promover a identidade da região, não apenas como produtora de vestuário com qualidade, mas, também, como criadora e difusora de marcas de moda.

A metodologia para o desenvolvimento deste livro sobre o setor têxtil e do vestuário do Vale do Itajaí, no Estado de Santa Catarina, envolveu o levantamento bibliográfico e de dados macroeconômicos, viagens de observação in loco e coleta de depoimentos de profissionais e empresários da região. Culminou com a participação em um encontro do SCMC realizado na tenda circense do parque temático Beto Carrero World, no município de Penha. Ao assistir a empresários da indústria têxtil e de confecção catarinense sentados na arquibancada e discutir informalmente, com bom humor, o futuro do setor, encontrei o ponto de alinhavo para minhas impressões: é da união, do comprometimento e otimismo de pessoas como aquelas com as quais conversamos, do engenheiro ao químico têxtil, da costureira ao estilista, do empresário ao profissional da comunicação, que é construída a identidade da moda que o brasileiro veste.
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Cap 1

Em Santa Catarina, a produção têxtil impressiona pela tradição, com mais de 130 anos de trabalho e ousadia. A arte do seu vestuário é feita de fibra, fio, corte e costura trançados por costureiras, técnicos e empreendedores. Força do hábito e dos costumes, a moda é criada no cotidiano, no fio diário da vida e na casualidade das relações. Imprescindíveis, os guardiões desta trajetória ali estão recolhendo saberes, indumentárias, estilos de época, resquícios e relíquias para o futuro. Os museus salvaguardam a memória, mantendo-a no presente a inspirar novos talentos.

ZEITGEIST: A ARTE DO VESTUÁRIO

Para o grande filósofo da modernidade Georg W. F. Hegel (1770-1831), todo acontecimento ou êxito nada mais é do que resultado de um processo. Observar qualquer área de produção cultural e material a priori é entender tal processo, que, por sua vez, gera mudança e transformação. A mudança, processo histórico, ainda que relacionada ao tempo, Zeit, é um potencial, um vir-a- ser, semente e essência, aquilo a que o pensador se refere como Geist, algo a meio caminho entre sentir e perceber, espécie de quintessência do ser, na sua melhor expressão de autoconhecimento e autorrealização. A relação do vestuário com o Zeitgeist, nesse sentido, é tão surpreendente quanto infalível, ao prestar-se tanto como possibilidade teórica para pensar o fenômeno moda quanto como possível compreensão da causa e efeito do fenômeno.

O historiador August Racinet (1825-1893), nos seus estudos sobre o vestuário, percebe que a roupa reflete o período em que é usada e os esforços para mudar a moda, radicalmente ou não, são sinais dos tempos. No Diretório (1795-1799), momento após a Revolução Francesa, surge o embrião de uma mudança radical no vestuário que influenciará todo o Ocidente. A roupa começa a ganhar mais leveza e se torna mais definitiva na forma. Segundo François Boucher (1703-1770), com a perda da aura aristocrática que se espalhou na Europa Ocidental, surgem novos valores, os homens estão cada vez menos ornamentados e passam a se vestir conforme a ocupação profissional.

Ao longo do século 19, influenciada pelas novas condições de vida impostas pela Revolução Industrial e submetendo-se às novas tecnologias têxteis e das máquinas de costurar roupas, a indumentária feminina gradualmente perde seus elementos de fantasia e capricho. A partir de 1850, o negócio das roupas é transformado pela abertura de grandes lojas de departamento e feiras de exibições. As organizações de produção em massa, do prêt-à- porter e do ready to wear, impõem estilos, códigos, materiais e acabamentos, tendo em vista novas classes emergentes.

Na Paris da Belle Époque, destaca-se um criador e produtor artesanal chamado de couturier, a exemplo do inglês Charles Frederick Worth. São pequenos ateliês que fazem vestidos e enxovais femininos à mão, com modelagem escultural, para um corpo idealizado e tratado como ornamento. A julgar pela descrição de Boucher, a moda feminina nessa época beira ao absurdo. Figurinos exagerados deixam a desejar no quesito graça, nas armações pesadas demais, nos chapéus sobrecarregados e no efeito geral de um incômodo vestir (Boucher, 1996, p. 374).

Segundo documentado pelo sociólogo e economista Thorstein Veblen (1857-1929), na virada do século, uma mulher bem vestida representava socialmente um status para sua família. Na obra “A teoria da classe ociosa” (1899), Veblen estabelece o conceito de consumo conspícuo, ou ostentatório, com a finalidade de impressionar e demarcar posição social. Livros de etiqueta tornam-se leitura obrigatória e publicações femininas com foco na moda e nos costumes são cada vez mais procuradas. Estar na moda ganha novos sentidos, como usar a roupa certa na ocasião, hora e temperatura corretas. Aderir a essas regras passou a fazer parte da vida em sociedade.

Na Inglaterra do Romantismo, a crinolina encontra oposição violenta das massas. A peça é satirizada na mídia, apesar de ser considerada uma evolução no vestuário feminino, ao dispensar as camadas de anáguas. Com a curiosa reação “anticrinolinista”, lojas de departamento como a Liberty, em Londres, introduzem uma nova proposta de vestuário mais prático, com aspecto sóbrio e feito para ser usado no dia a dia. Segundo os historiadores, a simplicidade da nova proposta não exclui o sentido de elegância e as senhoras começam a cobrar dos seus costureiros um estilo com formas mais casuais.

Nesse cenário de mudanças de valores emerge o primeiro movimento em grande proporção, de contrarreforma ou antimoda. Batizado de Aesthetic Dress Movement (Roupa Estética e da Reforma), surge na Inglaterra e ganha força nos Estados Unidos. Com a influência do puritanismo protestante, passa a ser chamado de Grand Denial, ou “Grande Refusa”, verdadeiro boicote aos excessos e submissões impostos pela moda. Intelectuais, feministas, boêmias da burguesia e trabalhadoras da classe média passam a renegar a moda vigente, considerada vergonhosa e ostentatória, e pregam o retorno a um vestir mais livre e amigável.

O Dress Reform Movement está associado aos primeiros movimentos de liberação feminina, das décadas de 1840 e 1850, e foi pioneiro ao promover a moda casual. Entre as defensoras mais fervorosas do movimento está a norte-americana Amelia Jenks Bloomer, que em 1850 popularizou a reformulação da saia comprida em um novo modelo batizado com seu nome. A “Bloomer” é considerada a primeira calça feminina do Ocidente. Motivado pelo crescente interesse pelos esportes no início do século 20, surge um estilo de vida cada vez mais ativo e saudável, que pede roupas mais confortáveis, com silhuetas mais leves e soltas. Aqueles a favor do movimento pleiteiam reformas na saúde e higiene do corpo, além do fim de frivolidades como rendas, babados e peças de baixo incômodas como bustles (armações), anquinhas (enchimentos), corpetes e anáguas. O movimento reverbera os conceitos iluministas do filósofo Jean-Jacques Rousseau (1917-1778), com foco na liberdade e simplicidade do vestir, temas que ele explora na obra “Emílio, ou Da Educação” escrito como Bildungsroman, gênero alemão de romance educativo.

A Alemanha no fin de siecle consiste em diversos países de língua alemã reunidos pela Deutscher Bund, Confederação Germânica, solta e dividida pela rivalidade entre Áustria e Prússia. Com a entrada tardia no sistema capitalista industrial, a região atravessa reformulação social que coloca em risco a pequena burguesia constituída por camponeses, artesãos fabricantes e comerciantes. O período é marcado pela degeneração de valores tradicionais e um recomeço com base no desconhecido. Ameaçado pelas importações de tecidos da Inglaterra e pela indústria avassaladora que vem substituí-lo, o pequeno artesão de tecido tem poucas opções – arrisca-se como empreendedor no novo modelo industrial ou sucumbe ao proletariado. Resta-lhe ainda a opção de começar a vida em outro lugar, para onde possa transportar sua cultura e seus valores (Maria Luiza Renaux, 1995).

Da Alemanha unificada surgem correntes de idealismo populista como o Volksgeist (espírito nacional), Volkstum (folclore), Altdeutsch (estilo antigo alemão) e, ainda, Kultur (cultura), consciência de uma nação com base na sua cultura e produção, tanto intelectual quanto material. Tais conceitos, além de valorizarem o sentimento de pátria nacionalista, reforçam o senso de ousadia e transformação que se traduz em uma vida voltada para o trabalho e que tem como realização a felicidade do dever cumprido. O novo clima estabelecido traz certo Lebensführung, ou estilo de vida, segundo a historiadora catarinense Maria Luiza Renaux. Essa nova atitude rejeita a frivolidade dos hábitos de imitação à corte, assim como os galanteios e maneirismos dos cortesãos, em favor das virtudes pequeno-burguesas consideradas mais legítimas por estarem fundamentadas na realidade da produção humana, conforme o espírito do tempo, o Zeitgeist.

Como foi documentado por Renaux, o que é considerado “cortesia” passa a ser visto como afetado e artificial, ao contrário da “virtude”, associada ao honesto e autêntico. O antigo amor à honra galante é substituído pelo amor ao trabalho burguês. O fim da malha social tradicional e as transformações das relações econômicas e produtivas levam camadas da sociedade a uma onda de imigração, na segunda metade do século 19, que atinge seu auge nas décadas de 1880 e 1890. Os primeiros imigrantes alemães que chegam ao Brasil e instalam-se na Colônia de Blumenau trazem o gosto pela vida prosaica, a valorização do núcleo familiar e a celebração do “feito em casa”.

Para os imigrantes, vestir-se, assim como morar, deve refletir as necessidades de adaptação ao ambiente, de se proteger do clima e atender ao corpo por meio do movimento e da higiene (Renaux, 1995). Predomina na Colônia de Blumenau um estilo de roupa coerente com os padrões burgueses, para os quais a estética conta menos do que a ética e a honra e a economia se traduz na limpeza e na higiene pessoal. O traje do colono da época, segundo Renaux, é a calça de linho, camiseta de algodão e chapéu de abas largas. Os pés, descalços ou enfiados em tamancas. As mulheres se vestem como na Alemanha rural, com saia, avental e blusa; porém, na colônia, algumas vezes se permitem abrir mão do corpete, do xale e da touca (Idem, 1995). Para as ocasiões especiais, consultam os figurinos das revistas trazidas da Europa.

O próprio Dr. Blumenau, fundador da colônia batizada com seu nome, adepto da camiseta de algodão e da calça de linho, instrui seus conterrâneos sobre a adaptação ao estilo de vida colonial. Segundo documentado pela historiadora Sueli Petry, Blumenau aconselha o imigrante a possuir pantalonas e colete de cetim preto, de preferência no corte da moda (Petry, 2000). Aos menos exigentes, o fundador indica que tenha pelo menos um paletó fino de tecido azul, para as ocasiões especiais. O antagonismo entre a roupa do dia a dia e o traje para ocasiões especiais pode, neste momento e lugar, ser um tanto sutil. Porém, intensifica-se na virada do século 20, quando finalmente se estabiliza, para então, no século 21, neutralizar-se.

Ao longo dos anos 1900, peças da moda casual como vestidos amplos, camisetas, calçolas e ceroulas são usadas dentro de casa ou como roupa de baixo. No início de século 20, a roupa casual é associada à roupa utilitária e ao uniforme. A partir de 1950, o atual básico jeans e camiseta vira imagem revolucionária para a juventude rebelde e, na década de 1960, é apropriado definitivamente como elemento do vestuário jovem e descolado, e nunca mais sai do guarda-roupa.

De volta a Hegel, cabe aqui retomar outra grande contribuição do filósofo para o pensamento da modernidade – a dialética, proposta conceitual e metodológica que tanto influenciou o pensamento científico e materialista. Ambos, zeitgeist e moda, são regidos pela dinâmica da dialética a partir de três movimentos em looping: tese, antítese e síntese. A tese é como uma hipótese, que, uma vez identificada, gera a antítese, espécie de tensão que busca apaziguar o conflito, até chegar ao consenso, que é a síntese, o resultado, propulsor da próxima tese, ponto de partida para um novo ciclo na dialética da moda.

A dialética hegeliana aqui aplicada à moda casual pode ser considerada uma antítese da moda afetada da corte rococó do século 18, que culmina com o movimento da contrarreforma (Dress Reform) no século 19. O movimento continua na oposição ao longo do século, quando adquire valores éticos e morais. As duas grandes guerras do início do século 20 impulsionam a tendência ao utilitário e racional, que no armistício é vencido pelo New Look de Christian Dior. Na década de 1970, um estilo de vestir-se sem pompas nem circunstâncias rompe de vez com o mainstream e assume uma posição de contracultura. Jovens de ambos os sexos aderem ao conforto e ousadia da roupa folgada, sem restrições, logo em seguida da roupa justa e elástica (leggins e collants). Esses movimentos refletem a libertação do corpo e, metaforicamente, da mente.

Nos últimos 30 anos, a revolução da moda casual continua a reverberar. Influenciada pelo movimento do japonismo dos anos 1980, adquire estética minimalista e desconstruída, com inspiração no pauperismo da era industrial europeia. Na década seguinte, na Europa e nos Estados Unidos, vem nova revolução nos paradigmas do vestuário que traz a estética do inacabado e assimétrico dos designers belgas da Antuérpia e o estilo desencanado e descombinado dos grunges de Seattle. A partir dos anos 2000, o casual encontra-se definitivamente infiltrado no vestuário urbano ocidental.

Atualmente, com os micromovimentos simultâneos que permeiam a cultura material como os High and Low, do Fast Fashion, do Normcore, do See now buy now e do Gendless, entre outros, chegamos a uma possível síntese da dialética da moda, quando opostos são anulados, moda e casual entram em equivalência e indústria, cultura e sociedade são uma só. A arte do vestuário propõe perceber e refletir justamente sobre este zeitgeist sem restringir-se ao vestuário, apesar de este ser seu objeto de estudo.

Entrevista com Suely Petry – História, tradição e cultura

Diretora de Patrimônio Histórico e Museológico da Fundação Cultural de Blumenau, Suely Petry analisa de que forma história, costumes e produção material são alinhavados na herança cultura do Vale do Itajaí

Sueli Maria Vanzuita Petry é considerada guardiã da memória da região e condecorada cidadã honorária blumenauense. Entre seus muitos feitos, é autora de livros, edita a revista “Blumenau em Cadernos” e conhece de cor e salteado o precioso acervo de indumentária do Museu de Hábitos e Costumes, legado da Sra. Ellen Vollmer. Sueli é historiadora, especialista em administração de arquivos pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e foi professora, durante 16 anos, nos cursos superiores de História e Moda da Universidade Regional de Blumenau (FURB). Nesse relato, a “guardiã da memória” tece seus comentários sobre a evolução de Blumenau e a tradição no vestuário, desde a chegada dos primeiros colonos europeus, até a relevância do Vale do Itajaí como polo produtivo.

MODA, CONCEITO E COLONIZAÇÃO

Estamos em uma crise dos paradigmas e das grandes instituições, como os desfiles de moda e a própria definição do que é conceitual. No Brasil há um ponto de vista de tratar moda como design, em decorrência da herança produtiva industrial; por outro lado, a manifestação da moda como em um desfile pode ser algo apoteótico, que apresenta, lança a produção da indústria, mas também traz uma manifestação do “aqui e agora”. Na década de 1850, a Europa vivia um pós-renascimento, com Charles Frederick Worth inaugurando o que viria a ser conhecido como a alta-costura e, aqui em Blumenau, iniciávamos um processo de colonização.

RELAÇÃO VELHO E NOVO MUNDO

Em nossos acervos temos revistas do ano 1868 que eram importadas da Europa. Ou seja, a alta-costura iniciando lá e as mulheres lendo as revistas aqui. Por quê? Quem eram essas mulheres? De que forma esse conhecimento contribui para a cultura local? Por outro lado, ao chegar à região, os colonos tiveram que abandonar seus pomposos trajes europeus. Devido às condições rústicas da região, houve um empobrecimento do traje. Hermann Blumenau, médico e filósofo alemão, que na década de 1850 recebeu autorização para estabelecer uma colônia privada na região, já alertava os futuros imigrantes sobre o vestuário apropriado ao uso no país tropical. Herança industrial com mais de 100 anos. As primeiras indústrias da região foram desenvolvidas a partir da demanda de fornecimento para os imigrantes que chegavam principalmente da Itália e da Alemanha. Quem fornecia o tecido grosso, listrado, usado nas calças dos colonos era a empresa Industrial Garcia, primeira grande tecelagem da região. Quem fazia os cuecões, as ceroulas, isto é, a roupa de baixo, era a Hering. Quem fazia um tecido diferenciado para decoração era a Karsten. No século 19, Garcia, Hering e Karsten foram as pioneiras no sentido de iniciar um parque industrial têxtil em uma região que não possuía matéria-prima, porém tinha território, recursos hidráulicos, mão de obra com herança na manufatura europeia, além do espírito de empreendedorismo, comum nos processos de colonização.

IMIGRAÇÃO E ASSENTAMENTO

No Estado de Santa Catarina, tudo começou com as imigrações. No litoral foram os açorianos; eles queriam o mar, ao qual estavam acostumados. Para o interior veio o europeu em busca de terras para desenvolver uma economia latifundiária, porém, de pequena extensão rural, minifúndios, suficientes para sobreviver. As famílias continham de 12 a 15 membros e, segundo a tradição, o filho mais velho saía de casa e o mais novo ficava tomando conta dos pais. Portanto, à medida que os mais velhos iam casando, migravam para outra região, o que acabou gerando muitas terras em lotes pequenos, de forma a não gerar grandes latifúndios. Em seguida, vieram os artesãos e comerciantes, aquele colono que não era agricultor. São os marceneiros, oleiros, talheiros, pequenos comerciantes, que perdiam autonomia na Revolução Industrial tardia da Alemanha e da Itália. As grandes indústrias que foram se estabelecendo, assim como as casas de comércio, tornaram-se as grandes irradiadoras da cultura local.

INDÚSTRIA E COMÉRCIO

A base da economia local passou a ser os comerciantes, que dominavam a economia em diversas localidades. O comerciante recebia do colono a matéria-prima. Porém, o colono não retirava o capital, deixava a render juros. Com isso, o comerciante acumulava capital e investia em várias outras ações. Na década de 1920 veio a segunda leva de imigrantes da Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial. Já não era o imigrante em busca da terra e sim o profissional que desejava se recuperar financeiramente e voltar para seu país. Porém, quando chegou aqui, percebeu que havia campo e incentivo, porque o comerciante iria financiá-lo. Em 1907 foi criada uma “caixa econômica” de empréstimos local, organizada por comerciantes e industriais. Essa caixa deu origem ao Banco Inco (Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina), que funcionou de 1934 a 1968, quando foi vendido para o atual Bradesco.

CULTURA, POLÍTICA E TECNOLOGIA

Blumenau era o centro intelectual e cultural, onde estavam estabelecidos a indústria e o comércio. Tudo se passava ali e o município tinha uma votação estrondosa, a ponto de ser considerado uma ameaça ao projeto de nacionalização. O grande município de Blumenau, que até 1930 tinha 10.610 km² e atualmente possui apenas 519,8 km², foi dividido em 40 municípios. Cada município desenvolveu um sistema econômico próprio, porém, interdependente e à semelhança de Blumenau, que continuou sendo o centro de referência para a região metropolitana do Vale do Itajaí. Havia o hábito de replicar o que se fazia em Blumenau, desde modelos econômicos até celebrações e projetos urbanos – o cordão umbilical continua até hoje. Apesar de descentralizada, a região passou a investir em outras tipologias de empresas. Na década de 1960 teve início um grande investimento em empresas de tecnologia da informação. A região até hoje é muito forte, tanto no desenvolvimento de softwares quanto de hardwares para a indústria pesada.

DESENVOLVIMENTO DO POLO TÊXTIL E DE CONFECÇÃO

Blumenau, como polo, impulsionava outras regiões, já que as cidades do entorno tinham território, porém, quase nenhuma atividade, a não ser a agrícola. Aos poucos, as prefeituras foram estimulando o desenvolvimento com inserção fiscal de 10 a 15 anos, para empresas se estabelecerem na região e terem tempo de maturação, de formação de mão de obra e começarem a crescer. Nas cidades do interior, como Rodeio, Ascurra, Ipiranga, Indaial e Gaspar, por exemplo, as mulheres trabalhavam no campo; porém, fazia parte da formação feminina saber costurar. Com apenas 12 anos de idade já faziam curso de corte e costura, como parte da educação para o lar. À medida que as grandes indústrias pioneiras, como a Hering, foram reformulando suas estruturas, incentivaram seus ex-funcionários a abrirem suas próprias facções e tornarem-se terceirizados. Além de disponibilizar assistência em gestão e contabilidade para os novos empreendedores, financiavam a venda de maquinário de segunda mão. Assim foram surgindo pequenas empresas familiares.

ELLEN VOLLMER E O MUSEU DE HÁBITOS E COSTUMES

Ellen Vollmer, nascida em 1928, é filha adotiva de uma senhora de espírito empreendedor, Cecília Weege Lischke, proprietária, com o marido e, depois, o genro e a filha, da fábrica de chapéus Nelsa, fundada em 1924. A família viajava para a Europa, via o que era produzido lá, comprava máquinas e fabricava localmente. Em 1953, abriram a malharia Maju, que produzia roupas íntimas e pijamas. A empresa fornecia a roupa fechada, a camiseta e a calcinha prontas. Dona Ellen participava de tudo, ajudava a mãe na malharia como estilista, desenhista, decoradora, uma espécie de mulher das sete profissões. Em 1965, com a influência da cultura jovem e da mudança na moda, a fábrica de chapéus Nelsa fechou. Dona Ellen se transformou em colecionadora de vestuário. Morria alguém e ela estava lá. Foi juntando botões, linhas, tecidos, sapatos, vestidos, maiôs, chapéus, bolsas, peles e acessórios. Ia guardando tudo em malas e, para não atrair traças, colocava dentro um saquinho de pimenta-preta. Em cada peça, colava uma etiqueta com dados sobre a quem pertenceu e em qual década. Quando a coleção foi doada para o acervo do Museu de Hábitos e Costumes, já veio catalogada. Ellen Vollmer foi pioneira no sentido de ter esse olhar, de perceber a importância da indumentária local como patrimônio artístico e cultural.
 


Cap 2

A produção material de um setor reflete-se na cultura da sociedade onde se insere, assim como em sua cadeia de distribuição de valores. Conforme narrado no capítulo anterior, tecidas na malha industrial catarinense estão a memória e a tradição de uma região com mais de 130 anos que fazem do Estado um dos principais polos têxteis e de confecção do país. Essa trajetória é revelada em dados quantitativos confrontados com depoimentos de quem faz parte desta história e contribui para que a identidade da região seja seu maior patrimônio.

POR TRÁS DE PROCESSOS, HISTÓRIAS DE VIDA

Preparação da fibra, fiação, malharia, beneficiamento, costura e reaproveitamento de água fazem parte da linha de montagem do produto têxtil e do vestuário. Por trás dessas operações estão profissionais competentes e engajados com suas funções de transformadores

A cadeia de produção da malha de algodão é sustentada por uma série de elos industriais independentes, porém, integrados e alinhados. Ao transformar a matéria-prima, cada elo gera um subproduto acabado, semiacabado ou intermediário, que passa a ser matéria-prima para o próximo elo e agrega valor à matéria-prima original. O primeiro, prepara e analisa a fibra de algodão; o segundo, o elo da fiação, é onde a fibra é transformada em fio. A partir da seleção e mistura de fios, vem a construção da malha no tear circular. Em seguida, o beneficiamento (tinturaria) irá agregar acabamentos e efeitos, transferido pelo último elo da linha de montagem, o da confecção (corte e costura), onde o tecido é transformado em roupa e ganha tridimensionalidade. Porém, a cadeia da produção industrial não termina com a confecção e sim com o elo do tratamento dos afluentes, tão importante e essencial quanto os outros. No município de Luiz Alves, no oeste do Vale do Itajaí, esses elos são revelados por fontes primárias, a partir do relato de pessoas cuja vida e atividade profissional misturam-se ao fazer a mágica acontecer.


EVANDRO LUCIANI, SUPERVISOR DE FIAÇÃO

Evandro nasceu na cidade de Blumenau e trabalha há 23 anos na Rovitex, onde começou como operador. Atualmente, é responsável pela supervisão, manutenção e qualidade da produção de fios na matriz, em Luiz Alves, mas responde diretamente ao gerente da Incofios, em Indaial, a partir de uma interação entre as duas empresas. O profissional acompanha o processo desde que o algodão chega cru na indústria e vai para o armazenamento, separado por carreta. Do armazenamento, segue para o setor de análises de matéria-prima. Todos os lotes de fibras são submetidos a testes e análises antes da chegada aos teares. Cada algodão tem suas características, de acordo com fatores genéticos e influência do meio ambiente. Os fatores mais importantes para medir a qualidade da fibra são comprimento, uniformidade, resistência, tonalidade, elongação e fiabilidade. Segundo Evandro, o algodão pode ter características boas, resistência razoável, porém, pode conter muitas impurezas. Esses fatores devem ser detectados na avaliação inicial do processo. Todo o material testado é avaliado de acordo com o padrão USTER, medida de referência internacional para controles de qualidade de fiação. Quando é detectada uma fibra com resistência muito baixa, esta é eliminada, para não gerar uma perda no fio mais adiante, na linha de produção. O processo de limpeza e abertura do algodão se dá em duas etapas: na máquina Blendomat, onde a separação da fibra e impurezas ocorre através da força centrífuga e da gravidade, que induz a saída dos resíduos. Na cardagem, o processo de abertura e limpeza da fibra é mais precisa. Segundo Evandro, sua função é acompanhar até o final da linha do fluxo da fiação, onde toda a sujeira que sai de algodão, poeiras, caules e fibras descartadas vai para um depósito para ser armazenada e reciclada por uma empresa especializada.

PAULO VITOR GERETTO, SUPERVISOR DE MALHARIA

Paulo tem 26 anos e há dois trabalha na Rovitex como supervisor de malharia. Atualmente, reside em Luiz Alves, mas é de São Paulo e formou-se em Engenharia Têxtil na Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná. Veio para a região do Vale do Itajaí atraído pelas oportunidades que o polo oferece. Gosta de trabalhar em uma empresa como a Rovitex, que tem todo o processo têxtil, do início ao fim, sem pular nenhuma etapa. A malha é trabalhada a partir de diversos tipos e composição de fios, com controle de LFA (comprimento de ponto) para garantir sua gramatura final e estabilidade dimensional. Segundo Paulo, dependendo do ajuste dos teares circulares, da transposição das agulhas e da mistura de fios, sai um tipo de produto com um tipo de efeito. Ele cita como exemplo os mesclados acinzelados que nasceram de um defeito e hoje são considerados um efeito. A malha foi produzida a partir da mistura do fio de algodão com fibra de poliéster. No processo de tingimento, a fibra sintética continuou branca e o algodão foi escurecido. Nesse sentido, como explica o profissional, dá para ser bem criativo. A empresa trabalha com malha de várias estruturas, como a meia malha, o pique e o moletom. Segundo Paulo, a equipe da malharia sempre tenta desenvolver algo novo para apresentar à gerência de produtos, para aprovar e enviar uma mostra ao cliente. Além do tecido de malha para consumo próprio da confecção, a empresa também comercializa a malha em rolo. A meta da equipe é produzir 20 mil toneladas de malhas por dia.

IVO RONCHI, ABASTECEDOR DE PRODUÇÃO, E CARLOS JOSÉ KROISCH, SUPERVISOR DE BENEFICIAMENTO

Ivo Ronchi tem 23 anos de empresa e Carlos Kroisch, 22. Ambos trabalharam na primeira década da Rovitex, quando a empresa ocupava um único galpão, produzia malha do tipo popular, com fio open end e operava com uma gama de apenas 40 cores. Atualmente, a gama de cores é ampla e as cartelas são definidas por temas. Ao seguir para o setor de beneficiamento, a malha é tratada e tingida, para em seguida ser retirada uma amostra para avaliação da tonalidade. Como programador de produção, Ivo é responsável por receber um lote do Planejamento e Controle de Produção (PCP) e colocar nas máquinas de tingimento, a partir das especificações ou receita. Cada lote é agrupado por peças similares, unidas através da costura, com as mesmas afinidades de tingimento e com identificação específica para a programação da máquina. Carlos é responsável por toda a área de beneficiamento, tinturaria, acabamento, estamparia rotativa e utilidades, caldeira e estação de tratamento de águas e esgotos. O processo de coloração da malha envolve a aplicação de corante na fibra e fixação posterior e pode incluir matérias-primas de diversas composições. Além de profissionais como Ivo e Carlos, o tingimento conta com gerenciadores de processo que acompanham as diversas etapas, em tempo integral, de forma a rastrear o processo e corrigir eventuais desvios. As cartelas de cores desenvolvidas pela gerência de produto são elaboradas no laboratório químico da empresa, onde trabalha a engenheira química Marina Barbosa. A profissional explica que, dependendo da mistura de fios, o lote tem que ser tingido mais de uma vez para alcançar o tom desejado. Na fase de acabamento, o lote é acompanhado por outros especialistas, que fazem revisão de largura, gramatura e tonalidade, além de verificar o aspecto visual do produto como um todo.

SALETE GESSER CAETANO E MARIA DO CARMO MACHADO, COSTUREIRAS

No setor de costura, a malha bidimensional ganha forma tridimensional com a montagem e costura das partes que compõem a peça de roupa. É onde trabalham dona Salete Gesser Caetano e dona Maria do Carmo, costureiras com 24 e 23 anos de empresa, respectivamente. Dona Salete conta que foi uma das primeiras costureiras a serem contratadas e na empresa conheceu o marido, que é do Paraná e atualmente trabalha na fiação. Um dos filhos da dona Maria do Carmo quase nasceu na indústria, de parto prematuro, antes de a profissional ser levada às pressas para o hospital. Atualmente, duas das suas filhas mais novas trabalham na Rovitex e a mais velha faz faculdade de moda para ser estilista. As profissionais explicam que fazem a costura das peças em ritmo de linha de produção industrial, com cada costureira responsável por uma operação. Assim que a peça chega, cortada e com sua respectiva ficha técnica, começa a execução por operação. Se chega uma camiseta, a primeira operação fecha, prega um ombro, a próxima faz a bainha e assim por diante na linha de montagem. Com a dona Salete e a dona Maria do Carmo, trabalham sete profissionais. No início de cada turno é produzida uma ficha com a divisão das linhas de operação, de forma que cada costureira faz um pouco de tudo. Se a peça for básica, no caso da camiseta, chegam a produzir de 500 a 600 peças por dia. Se for uma peça com maior complexidade, com mais detalhes e acabamentos, demanda mais tempo. O tipo de tecido também influi na produção. Segundo as costureiras, a malha é mais fácil de costurar por ser mais maleável e garantir melhor encaixe. Já detalhes em renda ou tule demandam mais atenção. Quando identificam algo que não funciona, conforme as especificações da ficha técnica, chamam a supervisora; caso contrário, mais adiante, na linha de produção, o defeito pode ser percebido pela costureira seguinte e a peça retornar. Segundo dona Salete e dona Maria do Carmo, as peças de roupa mais elaboradas, portanto, mais difíceis de serem feitas, são os vestidinhos de criança. Já ambas elegem o moletom como o tecido mais agradável de trabalhar.

LOURIVAL MULLER, OPERADOR DE MÁQUINA DE TINTURARIA RESPONSÁVEL POR TRATAMENTO DE EFLUENTES

Seu Lourival entrou na empresa no ano de 1995, há 20 anos. Antes, trabalhava no campo e, depois, em uma funilaria. Atualmente, reside a uma quadra de onde trabalha e no meio do seu turno, que começa às 5h50 da manhã, vai tomar café em casa com a mulher. O profissional é responsável pela estação de tratamento de efluentes para adequar as águas residuais ao descarte no meio ambiente. Na empresa, a água utilizada em resfriamentos do tingimento, assim como a energia dos efluentes quentes antes do envio à estação de tratamento, é reaproveitada a partir de um sistema automatizado e monitorado pelo Seu Lourival, para garantir que atendam às normas internacionais ETA e EPA. Segundo o profissional, a água passa por todos os processos de produção, em especial a secagem em rama, o tingimento e a estamparia rotativa. O volume a ser tratado está na faixa dos 200 cubos por hora, para que a água seja devolvida para o rio 100% limpa. Após passar pela centrífuga, o lodo residual é seco e pulverizado, para então ser prensado e enviado para uma caçamba onde segue para um aterro ambiental certificado. O investimento em tratamento de água é o tempo todo fiscalizado por órgãos competentes e faz com que a empresa, atualmente, seja referência nesse quesito para o Estado de Santa Catarina. Por outro lado, segundo explica seu Lourival, o reverso também é verdadeiro: a água que é reaproveitada deve estar bem limpa para não sujar e amarelar a malha.
 


Cap 3

A história que se construiu durante mais de um século continua a evoluir, a partir da formação e do fomento aliados à criação e à ousadia de pessoas visionárias. Ao que tudo indica, daqui a cem anos esta história se perpetuará e continuará a ser contata, pois, ao consolidar o passado, olhar para o futuro passa a ser reconhecer sua essência, assumir a própria identidade e valorizar o patrimônio cultural e material acumulado.

ENTREVISTA COM AMÉLIA MALHEIROS – SANTA CATARINA NO MAPA DA MODA

Santa Catarina faz moda? Qual a essência e identidade do setor têxtil e de confecção da região? Para responder a essas e outras questões, ninguém melhor do que Amélia Malheiros, profissional experiente e engajada. Gestora de comunicação institucional da Cia. Hering desde 1992, assumiu em 2016 a diretoria do Santa Catarina Moda e Cultura (SCMC), movimento que há dez anos integra empresas, estudantes e instituições de ensino em busca de uma identidade de moda e design para produtos e marcas fabricados no Estado. Malheiros alerta para a necessidade de adaptar-se às mudanças de cenário e afirma que, para Santa Catarina entrar definitivamente no mapa da moda, a indústria local deve articular-se como setor produtivo e investir, cada vez mais, em pesquisa, treinamento e inovação.

DNA DA REGIÃO

À indústria têxtil e de confecção de Santa Catarina sempre foi atribuída uma preocupação muito grande com qualidade, serviços e prazo de entrega honestos, no sentido de propor apenas o que pode realmente executar. A indústria aprendeu muito com as décadas de exportação, principalmente no período dos anos 1990 aos anos 2000, quando atendeu ao mercado internacional, inclusive ao europeu e norte-americano, com fornecimento de produção de fábrica, expertise e know how para grandes marcas mundiais. Produzia-se internamente para entregar e vender produtos finais nas lojas do mundo todo. Algumas fábricas chegaram a destinar a maior parte da sua produção para exportação; as que não dependiam tanto da exportação eram as que tinham marca. A produção para marcas de terceiros sempre foi muito forte na região e isso deixou um legado muito importante. O mercado internacional é muito exigente nos tipos de malhas diferenciadas, além de processos e acabamentos inovadores; isso deu expertise à indústria de Santa Catarina, que precisaria sempre reinventar-se para atender a novos mercados.

PRODUÇÃO HÍBRIDA

Hoje a indústria atende principalmente ao mercado interno, seja na fabricação para grandes varejistas nacionais ou investindo nas próprias marcas. O expertise com o mercado internacional acabou sendo incorporado na produção das marcas locais. Acredito que a indústria de Santa Catarina seja única nesse sentido, de ter essa flexibilidade, de se reinventar. Podemos dizer que atualmente várias indústrias mantêm uma produção híbrida, isto é, parte da produção é feita em casa, parte é encomendada fora. A peça pode ser talhada e cortada internamente na empresa e a costura ser externa, por exemplo, assim como a lavagem pode ser terceirizada para empresas especializadas. Geralmente, o tecido plano é comprado fora, como no caso da sarja, que muitas empresas não fabricam, já que o forte da região é a malharia.

MUDANÇA DE CENÁRIOS

Nas últimas décadas houve um movimento de se voltar para o varejo, de se relacionar melhor com o consumidor final, pois é dele que volta toda a demanda – o que produzir, o que entregar. As indústrias que entram para o varejo passam a agregar esse olhar do seu consumidor que interfere na indústria produtiva a partir de uma retroalimentação. Houve um investimento maior no branding, na comunicação da marca, no relacionamento com o consumidor. O advento do crescimento do número de shopping centers no país viabilizou a exposição da marca; por outro lado, tirou o atravessador, o grande atacadista. Houve uma mudança de cenário que trouxe valores diferentes. Tornou-se uma questão de buscar a transformação ou perder espaço. Muitas empresas perceberam esse movimento antes, outras demoraram, há as que ainda continuam no modelo passado. Essa diversidade existe inclusive na presença das empresas na internet. Algumas já trabalham com múltiplos canais de forma integrada, outras ainda vivem o dilema entre a multimarca, a distribuição por franquia e as lojas ou canais diretos.

FAZER HISTÓRIA NA ERA DIGITAL

As novas tecnologias e a experiência digital e mobile vieram para ficar. A marca passou a ser a nova mídia e o consumidor tem seus domínios que as marcas procurar entender. Empresas de pesquisa identificaram esse empoderamento do consumidor que flui através de multiplataformas, em multicanais físicos e virtuais que ele utiliza para fazer suas pesquisas, monitorar a reputação da marca, além de usar as redes sociais para trocar questões subjetivas que dizem respeito ao valor institucional (intangível) da marca. Portanto, é preciso interagir com o consumidor nesse ambiente de omnichannel. Além disso, deve ser mantido o engajamento sem perder a essência, além de conseguir dar consistência para as múltiplas ações. Atualmente, tem se pensado muito mais em storydoing do que em storytelling. Pequenas ações, assim como pequenos dados, hoje podem afetar nas grandes tomadas de decisão, como podemos ver nas curtas trocas de informação dos chats.

ESSÊNCIA E IDENTIDADE

A indústria de Santa Catarina tem uma forma única de se relacionar com o consumidor que não é tão caricata, como a moda feita à mão, por exemplo, de Minas Gerais. Não é urbano, como São Paulo. Tampouco é carioca no sentido das marcas antenadas, de beachwear. Santa Catarina é conhecida pela sua qualidade e tradição, além da relação custo-benefício que as marcas representam. A autenticidade de uma marca de Santa Catarina traz essa essência da roupa que é feita aqui e carrega a história dos pioneiros que aqui se instalaram e construíram essa cadeia produtiva que permanece até hoje. Esse movimento de se descobrir como identidade em Santa Catarina é recente, veio com a redescoberta da indústria dentro de si própria. Foi necessário refletir sobre o fato de ser uma indústria poderosa que precisa se organizar, capacitar, descobrir, inovar e contar isso para o mundo. Na última década, esse tem sido o desafio, fortalecer a indústria catarinense através desse novo olhar, desse reconhecimento de si própria, de ter a referência do mundo, mas usar a lente da identidade própria. Procurar por identidade foi o primeiro impulso; o segundo foi antecipar tendências. Agora, se pensa em como valorizar, preservar e continuar com o desenvolvimento da herança cultural e produtiva local.

ARTICULAÇÃO DO SETOR

Recentemente houve momentos de aceleração da indústria catarinense gerados pela macroeconomia, por investimentos no setor, o que potencializou a demanda por um posicionamento do Estado em relação à indústria da moda. A Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) tem investido no mapeamento do setor têxtil através de estudos de especialistas, além de incentivar a representatividade. O Santa Catarina Moda e Cultura (o SCMC) é um órgão sem fins lucrativos que tem investido na articulação dos empresários no sentido de trocar ideias e se posicionar enquanto polo produtivo, além de promover ações de inovação e capacitação. A ideia é colocar Santa Catarina definitivamente no mapa da moda.
 
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Astrid - Arte do Vestuário

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Astrid

Olá meu bem! Me chamo Astrid e estou aqui pra te dar uma mãozinha em conhecer este maravilhoso livro sobre a história da moda em SC.

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