Astrid Façanha no ID-Fashion

Nossa autora, a jornalista e pesquisadora Astrid Façanha, estará no ID-Fashion que acontece  28 e 29 de setembro, em Curitiba. Ela vem conhecer mais a fundo o trabalho dos estilistas e marcas paranaenses e gerar insights de pesquisa para  a segunda edição do livro Arte do Vestuário, que vai percorrer o Paraná em 2018.Nossa autora, a jornalista e pesquisadora Astrid Façanha, estará no ID-Fashion que acontece  28 e 29 de setembro, em Curitiba.

Ela vem conhecer mais a fundo o trabalho dos estilistas e marcas paranaenses e gerar insights de pesquisa para  a segunda edição do livro Arte do Vestuário, que vai percorrer o Paraná em 2018.  Astrid fez o texto que apresenta a coleção do estilista Alexandre Linhares, da H- AL. Confere aí:

Poesia desilusória

Antologia dos 10 anos de carreira do estilista curitibano Alexandre Linhares é narrada como um livro de poesias. Coleção resgata a complexidade no processo criativo da moda

Fé, introspeção e sentimentos sublimados dão o tom para a coleção de  roupas sóbria e diáfana, quase monástica, se não fosse a hierática  transparência em diálogo ensurdecedor com a pintura sobre tecido. Brancos  lavados contracenam com vermelhos intensos, harmonizados entre suaves  azuis, amarelos e verdes, os cinco tons carregados de simbolismo das  bandeiras tibetanas.

Silhuetas abstratas; volumes esvaziados de sentido; construções do  vestuário sem lado certo; peças de roupa com ocasião de uso indefinido;  gênero-flúido; sem idades; nem identidade. Proposital? Na realidade, esclarece Linhares: “A intenção não é perturbar e, sim, acalmar”. Dissonante do que se espera de uma grande retrospectiva, Poesia Desilusória, ele explica: “É uma coleção apolítica, sutil e um tanto Zen".

Resultado de um processo experimental, linguagem artística e desapego  raro ao sistema, a marca H-AL de Alexandre Linhares, rebate tanto os  cânones quanto os clichês da moda. As peças de roupa são acabadas com retalhos resgatados de histórias passadas, poemas escritos, porém não  recitados, sentimentos sublimados com chance de voltar à tona.

Uma vez pronta a peça, inquietações levam à novas intervenções, em gestos anárquicos, com ênfase no afeto. Tinta aplicada a mão sobre o tecido, bordados interrompidos sobre o pano, aplicações desconexas que geram padrões decorativos, vazios substituídos por hiatos, transparências opacas, brilho mordaz.

Poesia Desilusória revela o criador de moda como elemento provocador, disruptivo, articulador de imersões investigativas nos campos da  subjetividade. Aqui, sem qualquer pretensão de entregar-se seja à esta ou aquela causa, nem despertar nada de mais, desde que seja pura poesia, páginas folheadas de um livro em construção, o conto de uma história sem fim.

Por Astrid Façanha  

Ficha Técnica Coleção Poesia ilusória

Looks: 35 que podem ser desmantelados em outros tantos.Elemento chave: a transparência.Modelagem: criativa.Shapes: vestidos, tops, calças e jaquetas.Silhuetas e volumes: organicidade, linhas T e H.Cartela de cores: brancos, vermelhos, azuis, amarelos e verdes.Matéria-prima: seda pura doada por um ateliê de roupa de festa, retalhos bordados de paetê, malha de algodão, pano de prato e outros reaproveitamentos, como um antigo lençol de enxoval com monograma, presenteado por uma amiga poeta.Intervenções: imagens sacras e versos bordados, aplicações de tecido, pintura artística.Intenção: Acolhimento, generosidade, investigação, causa e efeito, transformação.   Alexandre Linhares e a marca H-AL

Formado em Design de Produto, pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), o curitibano Alexandre Linhares, 34 anos, estilista da marca H-AL, tem uma linguagem autoral, intuitiva com propostas inesperadas, capaz de  fazer arte vestível de uma singela peça de roupa. Nos dez anos de mercado, acompanhado da inseparável Tiffany, atraiu e fidelizou um grupo  heterogêneo de usuários com uma proposta que foge do senso comum e  passa ao largo do mainstream. A marca registrada do estilista surgiu e se  manteve na última década com valores e processos, à princípio, altruístas,  porém cada vez mais inegociáveis no sistema da moda, tais como, upcycling, redesign, zero waste, localvore e economia circular.

Segundo Linhares: “Sempre fomos slow e trabalhamos com estas práticas,pois ser sustentável e orgânicos com o nosso meio ambiente era o que  podíamos fazer de melhor". A dupla adotou seu próprio ritmo de trabalho com coleções nascendo de coleções, em um processo ininterrupto de criação e design. As peças feitas por eles próprios e costuradas nos fundos da loja- ateliê no bairro Mercês, em Curitiba, chegam em lotes, como se fossem atos, uma peça derivada da outra, porém, cada uma peça única. Uso aleatório de tecidos misturados sem lógica aparente. Desfiles e apresentações nada convencionais, coleções sem tema e modelos fora do padrão. O conjunto da obra leva a pensar sobre novas possibilidades éticas  e estéticas e, no ato da reflexão, rende sua própria homenagem à moda.